sábado, 24 de agosto de 2019

Sessão Contos do Autor | Noite de Terror


Noite de Terror

por: Eduardo Moretti


“A noite acendeu as estrelas, porque ela tinha medo da própria escuridão.”

Mário Quintana

*****

Os pais de Brenda estavam preocupados com ela e a sua viagem repentina. Fazia pouco mais de dois meses que Nicole, sua irmã mais nova e o namorado dela haviam desaparecido quando iam para um show numa cidade vizinha e nunca mais eles voltaram para casa. E agora do nada, Brenda também decidira ir viajar e iria passar pelo mesmo caminho que Nicole havia percorrido com Peter.

- Brenda minha filha, por favor, eu te peço... Não vai! - disse a mãe implorando para ela, enquanto Brenda terminava de arrumar sua mochila.

- Eu preciso ir mãe... Olha só não vai acontecer nada comigo, eu prometo. É só um fim de semana na casa de campo dos pais da Kelly. A turma toda vai estar lá.

- Deixa ela ir e se distrair um pouco meu amor. - interveio o pai compreensivo. - Ela é jovem e tem que se divertir. Desde que tudo aconteceu, enfim... Que ela vive trancada dentro dessa casa, só sai para o colégio. Sair um pouco e respirar outros ares vai fazer muito bem pra ela.

- Obrigada papai. - disse enquanto dava um beijo no rosto dele. - E vocês deviam fazer o mesmo viu... Sair e aproveitar mais a vida, porque apesar de tudo ela continua, e depois a Nicole seria a primeira a não gostar de ver vocês dois assim tão pra baixo.

- De certa forma eu sei que você tem toda razão minha filha... Mas a perda de um filho, principalmente de maneira tão brusca como foi no caso da Nicole, com ela estando desaparecida e nós sem sabermos ainda se a sua irmã está viva ou morta, é mais difícil... Nós queremos ter uma resposta, ainda que ela seja ruim, mas que pelo menos vai nos fazer seguir em frente de uma forma ou de outra, entende? Mas essa agonia de não saber nada, de não ter uma certeza do que realmente aconteceu com a sua irmã é o que acaba comigo. - diz pegando o retrato da filha em cima da escrivaninha e depois fica olhando para a foto, com lágrimas nos olhos.

- Se a polícia ao menos não tivesse parado de procurar por ela... Chega a ser um descaso isso, eles darem as buscas por encerradas antes de encontrá-la. Eles deveriam ir mais afundo nessas buscas e não desistir delas. Mas eles não estão nem ai para o desespero de um pai e de uma mãe. Se eu soubesse quem foi, eu já teria feito justiça com as minhas próprias mãos. - disse seu pai se aproximando da esposa e colocando a mão no ombro dela, enquanto Brenda olhava para os pais com pesar, e depois fechou a mochila ao ouvir o barulho de buzina lá fora.

- Eu preciso ir agora, eles chegaram... Prometem pra mim que vocês vão ficar bem? - pergunta preocupada. - A justiça vai ser feita, podem acreditar. Quem foi que possa ter feito algum tipo de mal pra Nicole vai pagar por isso. - diz decidida. - Eu amo vocês. - fala sorrindo e depois se despede dos pais, que pedem a ela que tome cuidado e orientam Jason a não correr na estrada.
*****
Brenda olhava emocionada a foto da irmã. Seu olhar tinha um misto de dor, raiva e saudades. Sem ver Nicole há mais de dois meses, e sem ter ideia do que acontecera com ela de verdade, Brenda só pensava em acabar com todo aquele sofrimento de seus pais, que fazia mal para ela. Brenda sentia-se impotente sem poder fazer nada. Nicole e o namorado iam ver uma banda nova tocar num show em outra cidade. – Eles estavam eufóricos. Nicole era linda, cheia de vida e tinha apenas dezessete anos. Ela não podia estar morta. Brenda se recusava a acreditar nisso. Um mês apenas depois do ocorrido, e a polícia deu as buscas por encerradas. - E se Nicole ainda estivesse viva em algum lugar? E se tivesse sendo maltratada? E se a tivessem seqüestrado e levado pra fora do país para roubarem os seus órgãos? – Ela não podia aceitar isso. – Distraída, ela nem percebeu que a mini van parara e que eles haviam chegado. – Só então ela olhou em volta e viu que já era tarde da noite, pois estava um breu lá fora e o único barulho que se ouvia era o de uma coruja em cima da casa. – Ela então desceu da van e olhou para enorme placa velha à sua frente e leu: Sejam Bem Vindos a Livramento - SP. – Cidade Onde a Fé faz Morada! Brenda deu um meio sorriso e meneou a cabeça negativamente, pensado: - Cidade onde a fé faz morada... Fala sério. Deviam ter escrito: Cidade onde pessoas desaparecem ou morrem, isso sim. – concluiu revoltada.

- Tudo bem amor? – indagou Jason preocupado. – Jason era um cara do bem, moreno alto, bonito e tinha dezoito anos. Brenda por sua vez, era branca, tinha cabelos levemente cacheados nas pontas, bonita, delicada e também tinha dezoito anos.

- Não. – respondeu séria e depois sorriu. – Mas vai ficar. 

- Toma. – disse lhe entregando uma garrafa de água. – Bebe. Você não bebeu nada desde que saímos de casa, deve estar morrendo de sede.

Brenda pegou a garrafa de água e a virou quase toda de uma vez na boca, só então percebeu que o que Jason dissera era verdade, ela estava morrendo de sede. - Obrigada. - disse devolvendo a garrafa pra ele.

- Meu Deus! Onde nós estamos? Esse lugar é sinistro. – observou Kelly apreensiva ao descer da van e ver que não havia mais nada em volta a não ser floresta, estrada e uma velha casa a frente deles. Kelly era loira de olhos claros e tinha dezoito anos.

- Na entrada da cidade. Pra ser mais exato a uns trinta quilômetros de Livramento, interior de São Paulo. – falou Fred olhando o mapa. Fred era ruivo, tinha sardas e dezessete anos. Ele entregou a foto da internet para Brenda e perguntou: - E ai confere com o local? – todos olharam para a enorme e velha casa abandonada, onde em volta só havia mato. – Brenda olhou para a foto e para o local. – É aqui. Eu tenho certeza... O namorado da Nicole chegou a mencionar esse casarão velho no e-mail que enviou pra ela com todos os detalhes do local do show e onde seriam vendidos os ingressos. Agora que tipo de pessoa vende ingressos para um show num local abandonado? - indagou curiosa.

- O tipo de pessoa que tortura e depois mata suas vítimas. - disse Fred rindo.

- Que piadinha mais sem graça Fred. Agora não é hora pra esse tipo de brincadeira amigo. - disse Jason o repreendendo.

- Claro, me desculpa. – disse sem graça olhando para Brenda.

- Mas a polícia esteve aqui e não encontraram nada, nem uma pista? – perguntou Kelly curiosa.

- Nada. Eles devem ter feito uma limpa antes... - comentou Brenda, enquanto olhava tudo em volta.

- Ou só quiseram atrair jovens pra cá, para serem degolados. – falou Fred pegando no pescoço de Kelly.

- Para Fred! Brincadeira mais sem graça. Olha só me arrepie toda...

- Shhh. Quietos. – disse Jason os puxando para trás da van e apontando para casa ao lado de um grande galpão. A casa era grande, velha e parecia estar abandonada. Mas de repente surgiu um sujeito grandalhão, careca, com a roupa toda suja, rasgada e um avental coberto de sangue. Ele estava furioso, desorientado, olhava para todos os lados, tinha um amassado no crânio do lado esquerdo e sua figura dava medo. – Ele saiu carregando uma picareta na mão e entrou no galpão.

- Nós temos que sair daqui agora ou estaremos todos ferrados! – disse Fred branco de medo.

- Eu não devia ter vindo... Olha pra esse lugar? Olha aquele homem, ele parece um monstro. Nós vamos todos morrer. – disse Kelly apavorada e chorando. 

- Se acalma Kelly, por favor! Ninguém vai morrer aqui hoje, entendeu? - falou Brenda tentando acalmá-la. De repente um grito de mulher pedindo socorro e vindo da casa ecoou pela floresta e todos se desesperaram. Fred foi entrando na van e gritando para todos entrarem logo.

- Meninas é melhor entrarem logo. – disse Jason ao ver o grandalhão saindo do galpão e ir correndo na direção deles. – Toca o carro Fred. Agora! – gritou Jason assustado.

Nesse momento o grandalhão arremessou a picareta de longe e Jason gritou: 

- Pessoal se abaixem! - e depois puxou Brenda para junto dele, a protegendo.

No momento seguinte tudo o que eles ouviram foi um barulho forte de vidro se estilhaçando e Kelly gritando sem parar. Quando Jason olhou, viu Fred morto com a picareta cravada no lado direito de sua cabeça, e de sua boca escorria um sangue espesso. O sangue não parava de jorrar, chegando a escorrer pelo pescoço de Fred.

- Não olha agora meu amor, não olha. – disse Jason trazendo Brenda para si novamente. Quando todos olharam para fora da van, foi à vez de Brenda gritar. - O grandalhão estava do lado de fora, olhando para eles sorrindo, e de perto ele dava mais medo ainda. Ele não tinha um dos olhos, um buraco negro e fundo ocupava o lugar do olho direito, e o seu sorriso mostrava dentes podres. – Imediatamente eles saíram do carro e puxaram Kelly com eles que estava estática com toda a situação, e correram em direção a casa. – O grandalhão então retirou a picareta do crânio de Fred com tudo, fazendo a cabeça dele bater no volante e em seguida correu feito louco atrás deles.


- Corre Kelly, corre... – gritou Brenda.

Kelly corria devagar, seu corpo estava pesado, por fim, ela acabou tropeçando em uma enorme pedra e caiu. Ela então começou a gritar por ajuda. Jason e Brenda pararam e não sabiam se voltavam para ajudar Kelly ou continuavam correndo, já que o grandalhão estava bem perto deles e já se preparava para arremessar a picareta. 

- Kelly! Não! – gritou Brenda chorando. – Kelly não conseguia se levantar e tentou em vão se arrastar pelo chão desesperada, quando o grandalhão acertou o pé dela com a picareta e a puxou para si, fazendo-a gritar mais ainda de dor e medo.

- Não. Por favor! Eu não quero morrer... – dizia implorando para ele que nem dava ouvidos e por fim arrancou de uma vez a picareta de seu pé, e em seguida ele a ergueu e numa pontaria certeira a cravou no coração de Kelly, que morreu na hora.

Brenda virou o rosto e Jason a abraçou. – Vamos. Nós não podemos parar agora amor. - Finalmente eles chegaram até a casa e entraram. Depois de fecharem a porta, eles bloquearam a entrada, arrastando um armário velho na frente da porta... Só então, eles respiraram aliviados. Brenda olhou pela janela e não o viu mais. – Onde será que ele foi? 

- Eu não sei. Vem... Nós temos que achar uma saída e dar o fora desse lugar o quanto antes.

- Você ouviu os gritos? Era de uma moça. Pode ser a Nicole. – disse nervosa. 
A casa era velha e suja, quase não havia mobília, tinha uma luz fraquinha e o assoalho de madeira rangia. Eles viram uma porta no fim do corredor e a abriram devagar. – Depois adentraram numa sala ampla, onde havia uma mesa de mármore comprida com uma pia acoplada e cheia de instrumentos cirúrgicos. Havia luvas, bisturi, pinças, tesouras, alicates de corte, uma caixa cheia de algodão, seringas e garrafas com um líquido escuro. O cheiro do local era forte, parecia de algo morto e havia muito sangue em cima da mesa escorrendo pelo pequeno ralo no fim dela. No canto eles viram outra porta e devagar e com os corações batendo na boca, eles entraram. – Ali o ambiente era mais limpo, tinha caixas grandes e médias empilhadas por todos os lados e Jason ficou curioso e decidiu abrir uma. Dentro ele encontrou vários olhos artificiais, mas que pareciam demais com olhos humanos. – Não Jason, para. Não faz isso. – sussurrou Brenda nervosa. – Jason olha. – disse Brenda apontando para um canto onde um homem estava de costas para eles. – Ele fez sinal pra ela ficar parada onde estava e foi se aproximando com todo cuidado, quando chegou perto ele ficou pasmo com o que viu: O homem parecia humano, os olhos eram vivos, porém frios e estáticos. Ele tocou a pele, e sentiu a textura bem lisa, macia e gélida. – Que foi? - Brenda se aproximou e também ficou pasma, sem saber se o homem era humano ou um boneco. 

- Vamos sair daqui agora e chamar a polícia. – disse desesperado.

- O que era aquilo? – perguntou perturbada.

- Eu não sei... Mas essa mesa, todos os instrumentos... – Ele parou de falar quando viu um freezer na sua frente e foi até ele. - Vamos sair daqui. Não Jason. – Ele abriu o freezer e lá dentro havia um corpo de uma moça congelado. Brenda que também se aproximou, reconheceu o anel no dedo da irmã e tentou gritar, mas Jason abafou seu grito, tapando sua boca. – Ela chorou desolada. – Esse monstro matou a minha irmã! Nicole... Não... Quantas pessoas ele deve ter matado cruelmente e pra quê? O que ele faz com os corpos? 

- Ele é um serial killer, mata por prazer. Tudo que vimos aqui faz parte de uma prática usada a milhares de anos em animais, mas que ele utiliza em humanos sabe se lá por quê? Ele está matando pessoas e conservando seus corpos, utilizando a Taxidermia para isso.

- Taxidermia? Eu já li sobre isso uma vez, é o empalhamento de animais. Especialistas usam essa técnica depois que os animais morrem para conservá-los como se estivessem vivos e muitas pessoas até decoram suas casas com esses animais...

- Exatamente! Só que aqui ele usa a técnica em suas vítimas.

- Meu Deus! Isso é bizarro. Porque ele faz isso? 

Nesse momento o grandalhão surgiu por uma porta atrás de Jason e o pegou pelo pescoço. - Corre Brenda, corre! – Logo depois Jason teve a garganta cortada e ficou no chão, estirado e sangrando. - Brenda correu até uma porta, onde desceu uma escada e foi parar direto no porão. Lá ela encontrou vários corpos também empalhados, de homens, mulheres e até de crianças. – Atônita e completamente perdida, ela voltou a si, quando ouviu alguém chamando.

- Moça... Me ajuda. Por favor! Me tira daqui. – implorou uma mulher desesperada, que estava amarrada e jogada num colchão velho. – Brenda foi até ela, mas se afastou ao ouvi-lo descer, fazendo sinal para que a mulher fizesse silêncio. Ela se escondeu num canto atrás de umas caixas e em cima de uma bancada encontrou uma faca, ela então não pensou duas vezes e a pegou.

- Me ajuda... – A mulher gritava, quando ele apareceu. – Me solta seu monstro, me tira daqui. Socorro! – Nesse momento ele foi até ela e enfiou um facão em seu estômago, rasgando toda sua barriga e deixando-a sangrar até a morte.

Ele procurava Brenda em meio às caixas. Ela esperou ele chegar perto de onde estava e jogou uma caixa menor na outra direção, fazendo barulho e o confundindo. Ele foi para o outro lado. Ela então saiu devagar e se aproximou com calma, quando chegou perto, ele percebeu e se virou. E ela o atingiu cravando a faca no seu peito.

- Morra! Seu desgraçado. – gritou com ódio.

Ele caiu de joelhos e deu um urro forte e horripilante. - Brenda não perdeu tempo e saiu correndo do porão. A todo o momento ela olhava para trás. Em uma das vezes, ela podia jurar que viu a silhueta de alguém na janela do segundo andar da casa, mas quando olhou novamente, o vulto já não estava mais lá. Ela chegou até a van e abriu a porta desesperada, depois chorando pegou Fred pelo braço e o puxou para fora da van, deixando o corpo dele cair no chão. Ela então viu que as chaves ainda estavam na ignição. – Graças a Deus! – ligou a van, deu a volta e acelerou o máximo que pode. Ela tinha que avisar a polícia logo, e teria três horas de viagem pela frente. Ainda bem que Jason a ensinara a dirigir. – Foi só pensar no namorado que ela começou a chorar. Depois se lembrou da irmã e dos amigos. – Quantas pessoas aquele monstro teria matado? – se perguntou inconformada. Depois se lembrou do celular e o pegou no bolso de trás da calça, mas ao tentar ligar o aparelho viu que estava sem bateria. Nervosa ela o jogou sobre o banco. E pisou no freio, depois de ter ligado o rádio pra se distrair com a programação local. 

Após ter relatado as autoridades tudo que ocorrera com o namorado e os amigos na cidade de Livramento, e que encontrara o corpo da irmã desaparecida, a polícia foi até o local e eles avisaram também a policia de Livramento. Ao chegarem lá, eles nada encontraram, nem sequer uma pista que os levassem ao paradeiro do grandalhão e de um possível cúmplice. Havia vestígios de sangue por toda parte e diversas digitais de pessoas desaparecidas. O crime nunca foi solucionado. O assassino desde então desapareceu do mapa e ficou conhecido em toda região como: O Grandalhão da Picareta.
*****

Tema Instrumental do Conto:


FIM


sábado, 17 de agosto de 2019

Sessão Contos do Autor | A Vida Ensina, Outrora


Conto: “A Vida Ensina - Outrora

Autoria de: Eduardo Moretti

“A Vida Ensina, Mas só Aprende Quem Quer.”

*****

O por do sol era sempre mais bonito, visto do alto da Pedra do Elefante na cidade de Maricá, município do Rio de Janeiro. Era verão de 1999. - E foi ali em meio a belas praias, natureza, muito verde, matas e trilhas, que nasceu o amor de Tônia e Raul. – Ele no auge dos seus dezoito anos, era um rapaz bonito, atlético, que chamava a atenção das mulheres por sua beleza, altura e robustez. Tinha todas aos seus pés, mas o seu jovem coração batia mesmo era pela bela jovem loira, bonita, delicada e tímida, que ficava sentada na areia ao lado de seus pais, em quase todas as manhãs de domingo.

E esse era o principal motivo que o levava ir à praia todos os domingos de manhã, já que normalmente ele dormia até mais tarde, depois de uma boa noite de farra e aparecia por lá só após as duas da tarde. - Na pedra do elefante, ele se encontrava com os amigos, batia uma bola na areia, fazia trilha, rapel, dava altos mergulhos e algumas vezes arriscava-se até em cima de uma prancha. Mas desde que os seus olhos cruzaram com os da bela garota tímida, tudo isso perdera a graça, e ele agora só tinha olhos para ela, que por muitas vezes o olhava disfarçadamente por cima dos livros de romance que ela adorava levar pra ler na praia, embaixo de um guarda-sol todo estampado. – Ele precisava falar com ela, pelo menos saber o seu nome, pois já não agüentava mais tanta angústia dentro do peito, e essa mesma angústia só aumentava quando ele chegava à praia bem cedinho e a esperava por horas e horas em vão, e ela não aparecia. – Por vezes, Raul ensaiou chegar até ela, mas os pais dela não saiam de perto da garota e nem deixavam que ela se afastasse. Eles pareciam guardá-la e protegê-la, como quem protege um diamante precioso e frágil. Sendo assim ele então a chamaria de esmeralda, pelos lindos olhos verdes que ela tinha e que hipnotizam os seus.

Mas o destino muitas vezes pode nos reservar grandes surpresas, e o dia de Raul conhecer e falar com a sua bela Esmeralda estava bem mais próximo do que ele imaginava... Tudo começou numa linda manhã de domingo, depois que ela chegou à praia somente na companhia de sua mãe. – Ele jogava bola com os seus amigos e notara sua presença encantadora, linda e tímida. No mesmo instante, ele se distraiu e levou uma bolada na cabeça. – Presta atenção no jogo, seu Mané. – disse um dos seus colegas rindo, enquanto os outros também caíram na gargalhada. Pedro nem deu bola e continuou jogando, enquanto notava um meio sorriso de sua Esmeralda.

Tônia já havia percebido o interesse de Raul e pela primeira vez em seus dezessete anos de vida, ela também sentia o seu coração bater mais forte por um rapaz. – Ela nascera e crescera na belíssima região de Itapuaçu, distrito da cidade de Maricá. Desde muito cedo ela aprendera com seus pais que eram evangélicos fervorosos, o verdadeiro valor da fé e a seguir o caminho de Deus. Sua rotina era muito regrada e ela já estava cansada de sua vida ser tão sem graça e emoção. – Ela precisava sentir-se viva e experimentar outras coisas que não fossem só colégio, casa e igreja. Seu único passatempo fora tudo isso, eram os domingos na praia e ainda assim mesmo, não era todos que eles iam, e quando iam, seus pais nem a deixavam respirar direito, cercando-a de cuidados e recomendações, o que deixava tudo mais frustrante e chato. – Agora pelo menos tinha aquele belo rapaz que a olhava com ternura, carinho e desde que o conhecera na praia, ela fazia questão de ir mais arrumada, soltava os cabelos, que antes ficavam só presos em um rabo de cavalo, passava um batom claro, já que sua mão não permitia que ela usasse nada mais chamativo, e pintava as unhas de rosa bebê. – E foi distraída, absorta em seus pensamentos e com os fones de seu walkman no ouvido, ao som de Vento no Litoral do Legião Urbana, que ela se assustou voltando à realidade, quando Raul se agachou na sua frente, a chamando insistentemente.


RAUL - Oi. Você esta bem? Moça... 

TÔNIA - Ah... Oi. O que foi que você disse? - indagou sem graça e ainda atônita.

RAUL - Eu perguntei se você esta bem? É que eu estava jogando bola com os meus colegas e um deles chutou a bola pra perto de você e eu vim busca-lá. Por pouco você não foi atingida... Ta tudo bem com você? Você estava tão distraída que nem me ouviu chamar...

TÔNIA - Ta... Ta tudo bem sim. Pelo menos eu não fui atingida né, eu acho? Cadê a minha mãe? – perguntou olhando para o lado e não vendo a mãe por perto, o que era estranho já que ela nunca a deixava sozinha, ainda mais em público. Será que aquilo era um sonho ou uma miragem afinal? Perguntou a si mesma.

AMIGO - Hei Raul... Joga logo essa bola cara, vai ficar ai o dia todo empatando o jogo? Vê se não perde tempo ai com a princesa ou então eu mesmo vou até ai e te dou umas aulinhas... – disse rindo um dos seus amigos fazendo todos rirem também.

Raul então se lembrou da bola que estava em suas mãos e se levantou a chutando tão forte quanto pode em direção ao mar, deixando o seu amigo furioso.

AMIGO - Qual é a sua hein cara? Seu babaca...

RAUL - Me desculpa. – disse sem graça, se voltando para Tônia. – Você me perguntou da sua mãe, eu a vi indo na direção dos quiosques, ela deve ter ido comprar alguma coisa.

TÔNIA - Não da pra acreditar nisso... É um milagre ela não ter me arrastado junto com ela. Você poderia me fazer um favor?

RAUL - Claro. O que você quiser.

TÔNIA - Me belisca pra ver se eu estou sonhando? – diante da insegurança de Raul, Tônia enfatizou. – Vai pode me beliscar, eu estou falando sério.

Raul então não mais hesitou e beliscou o braço de Tônia que fez até careta.

TÔNIA - Ai... Isso doeu!

RAUL - Me desculpa, eu não queria ter feito... Mas você insistiu.

TÔNIA - Tudo bem. Não precisa se desculpar. Foi eu que pedi, lembra? – disse interrompendo-o e sorrindo. – Depois esse beliscão serviu pra eu ver que não estava sonhando, e é muito bom saber que eu estou bem acordada. – falou sorrindo para ele, que retribui sorrindo mais ainda.

RAUL - Prazer. – disse estendendo a mão para ela. – Eu me chamo Raul.

TÔNIA - O prazer é todo meu, Raul. Eu me chamo Antônia, mas pode me chamar de Tônia, que é como os meus pais me chamam.

Tônia e Raul então se cumprimentaram com um aperto de mão que fora o mais entusiasmado de suas vidas, e também o mais demorado, acompanhado de olhares cúmplices e sorrisos comprometedores.

RAUL - A sua mãe esta voltando. – disse ele ao ver a mãe de Tônia vindo.

TÔNIA - Meu Deus! Você tem que ir agora. Ela não pode te ver aqui de jeito nenhum. Ela e o meu pai são super protetores comigo. – falou preocupada.

RAUL - Mas assim de repente? Eu gostaria de te ver de novo.

TÔNIA - Faz o seguinte, me espera aqui na praia amanhã as oito em ponto. Que eu darei um jeito de estar aqui. Agora vai, depressa.

Raul saiu de mansinho e sempre olhando para Tônia. Depois ele correu e pulou no mar, enquanto a mãe de Tônia chegava trazendo dois cocos.

TÔNIA - Nossa mãe, a senhora demorou... Eu já estava aflita sem saber aonde a senhora tinha ido.

MARIA - Sem drama, Tônia. – disse entregando-lhe o coco. – Depois eu disse sim senhora que ia até o quiosque comprar água de coco pra gente, a senhorita que para variar estava distraída lendo um desses seus romances de faz de conta e não prestou atenção. Aprenda uma coisa minha filha, a vida é bem mais complicada do que um romance de livro, filme ou um folhetim qualquer. A gente tem que estar bem preparada para os revezes que ela nos reserva também... Sonhar é bom, mas com os dois pés no chão. Tem que acordar pra vida filha... Tem que acordar pra vida.

TÔNIA - Eu já acordei mãe... Eu já acordei. – disse sorrindo e tomando o coco de canudinho, enquanto olhava Raul mergulhando e brincando com seus amigos no mar. 
*****
O dia seguinte demorou a chegar e a ansiedade estava consumindo Tônia, que ainda teria que pensar num jeito de ir ver Raul, sem que seus pais descobrissem. E a saída mais fácil que ela encontrou, foi fingir que ia para o colégio. E as oito em ponto da manhã de segunda feira, lá estava ela de calça jeans, camiseta do colégio, tênis e mochila nas costas em plena praia, parecendo uma turista, recém chegada de uma excursão qualquer. – E não demorou muito para que Raul chegasse.

RAUL – Então a mocinha esta cabulando aula né? - disse sorrindo.

TÔNIA - Ai que susto, Raul. – disse dando um tapa no braço dele. – Esse foi o único jeito que eu encontrei de estar aqui hoje. Mas não se preocupe que por baixo dessa roupa, eu estou de biquíni e dentro da mochila ao invés de livros e cadernos, estão meu shorts, uma toalha, pente, perfume, enfim tudo que eu preciso para me recompor depois. – concluiu sorrindo.

RAUL - Você pensou em tudo mesmo hein? Vem comigo... – pediu estendendo a mão pra ela.

TÔNIA - Pra onde? - indagou curiosa.

RAUL - Você confia em mim?

TÔNIA - Confio. – falou enquanto começava a se despir ficando só de biquíni e depois colocou um shortinho. Em seguida, ela pegou na mão dele.

Raul conduziu Tônia para o alto da pedra do elefante, o que a deixou um pouco insegura no começo e com medo de subir tão alto, mas só de sentir o calor da mão dele, tudo desaparecia e ela se sentia protegida e segura por aquele belo rapaz que a fazia sentir-se viva como ela nunca se sentira em toda sua vida. – Já do alto da pedra do elefante, Tônia sentiu um enorme sensação de liberdade. Era como se ela estivesse no topo do mundo e de braços abertos ela sentia o vento percorrer todo o seu corpo, enquanto sorria deslumbrada e era admirada por Raul, que sorria também ao mesmo tempo em que foi se aproximando dela por trás e também abriu os seus braços, unindo-os aos dela e dando-se as mãos...

TÔNIA - Eu nunca me senti tão livre em toda a minha vida... É como se eu pudesse voar e ver toda a cidade daqui de cima. – disse toda feliz.

RAUL - E isso é bom?

TÔNIA - Ta brincando? - perguntou sorrindo. - Isso é maravilhoso! É a melhor sensação que eu já senti em toda minha vida.

RAUL - Quer saber o que faz a gente se sentir melhor ainda? Se você gritar bem alto daqui de cima.

TÔNIA - Você esta falando sério? Eu não vou fazer isso. - disse encabulada.

RAUL - E porque não? Eu vou fazer. Olha só... – Raul encheu o peito de ar e depois gritou: - Eu sou livre!

Tônia parecia não acreditar no que Raul acabara de fazer e ria o admirando.

RAUL - Tenta você agora... Vai.

Tônia então tomou coragem, enchendo o peito de ar e também gritou:

TÔNIA - Eu sou livre! Eu sou livre... Eu sou livre! – gritou três vezes seguidas, fazendo sua felicidade ecoar do alto da pedra do elefante, e depois sorriu para Raul indo de encontro a ele e o abraçando bem forte.

TÔNIA - Você tinha razão, a sensação é incrível! – disse entusiasmada.

RAUL - Eu te disse que era.

Os dois então se olharam por alguns segundos e aos poucos os sorrisos foram se fechando e eles se encararam sérios e com um brilho no olhar... Não demorou muito para que Tônia e Raul se rendessem ao primeiro beijo de amor. Um amor puro e verdadeiro que nascia em meio aquele paraíso na terra. – Para Tônia que amava ouvir músicas em seu walkman, era como se ele estivesse ligado naquele momento e a música que ela ouvia e servia de trilha sonora para o casal era: *All Star da Cássia Eller e o Nando Reis. – Depois de descerem da pedra, eles caíram no mar, brincando e jogando água um no outro, em meio a muitos carinhos e beijos.


*****
Raul e Tônia passaram a namorar escondido dos pais dela, mas Tônia não se sentia mais a vontade de ter que mentir para eles e depois de um mês de namoro, ela decidiu contar toda verdade aos pais.

MARIA - Um mês! Você esta namorando escondido há um mês e só agora que você esta nos contando, Tônia? - indagou a mãe furiosa e inconformada. – Por isso você tem estado distraída com as suas obrigações, até mesmo no grupo de jovens da igreja. O pastor Amadeu notou a sua falta de atenção, de comprometimento e veio falar comigo outro dia, meu Deus... Que vergonha, eu senti. Agora tudo faz sentido. Era por isso que eu e seu pai sempre proibimos você de namorar cedo. Na certa esse rapaz esta te levando pro mau caminho, só pode.

TÔNIA - Isso não é verdade, mãe. O Raul é um ótimo rapaz e tem me feito muito bem. Me desculpa, se eu não contei para vocês antes, é que eu fiquei com medo de vocês me proibirem de vê-lo. Eu estou apaixonada pelo Raul, pai. - disse Tônia emocionada.

JOSIAS - Você agiu muito errado minha filha. Mas eu confio em você, e vou te dar uma chance. Pode trazer esse rapaz aqui em casa, que eu quero conhecê-lo melhor e ver quais são as intenções dele com você.

Tônia pulou de alegria e correu a abraçar o pai, dando-lhe um beijo no rosto, em seguida foi até sua mãe que era mais durona e a abraçou também. 

Os pais de Tônia acabaram gostando de Raul e aprovando o namoro dos dois. O tempo passou e logo veio o noivado. – Raul já formado em advocacia, estava estagiando em um escritório de renome no mercado, enquanto Tônia se tornara secretária de um consultório médico e fazia faculdade de letras a noite, já que era seu maior sonho ser professora, mas ela não pode concluir os estudos, pois aos vinte e dois anos de idade, ela engravidou e o casamento teve que ser apressado.

A cerimônia foi linda e eles passaram a morar numa casa simples de quatro cômodos, mas era o que dava para Raul pagar o aluguel. Aos poucos ele foi conseguindo êxito no escritório e passou a ganhar mais... Dentro de pouco mais de seis meses, Raul fora efetivado e era um dos novos advogados da empresa, e a primeira medida que ele tomou com o cargo de confiança e o aumento significativo no salário, foi financiar uma casa maior, de dois quartos, onde o bebê do casal tivesse o seu próprio quarto.
*****

Bianca nasceu forte e saudável, e era a maior alegria de Tônia e Raul.

TÔNIA - Nossa filha esta ficando cada dia mais linda né, meu amor? – disse olhando-a dormir.

RAUL - Sim, mas também ela puxou a mãe... Até nos olhos verdes cor de esmeralda. Lembra que antes de saber seu nome, eu te chamava de esmeralda?

TÔNIA - Sim, você me disse uma vez e eu achei super fofo. – falou sorrindo. – Nós precisamos marcar o batizado dela, eu quero que a nossa menina cresça sabendo o quão importante é estar em comunhão com Deus, ter uma religião, enfim... Já basta o pai dela que quase não vai à igreja né?

RAUL - De novo essa cobrança meu amor? Você sabe que eu nunca fui muito religioso né? O pouco que eu estou indo é por você. Aos poucos o hábito se tornará costume, você vai ver. Tenha só um pouco mais de paciência comigo.
*****

As brigas do casal foram aos poucos se tronando constantes e o casamento foi ficando desgastado... Tônia era muito rígida com a questão religiosa e gostava de impor o que ela pregava como certo ou errado, e Raul começou a ficar esgotado com tudo isso, a ponto de não se reconhecer mais. Às vezes ele preferia ficar até mais tarde no escritório a ter que voltar cedo para casa e ouvir suas reclamações, e era no fim do expediente que ele conseguia relaxar conversando com Miguel, o filho de seu patrão, que também era advogado. Os dois se tornaram grandes amigos em pouco tempo e mais do que isso, eles eram confidentes.

MIGUEL - Cara de verdade, eu não sei como você agüenta tanta cobrança assim da sua mulher. Eu jamais conseguiria ficar preso a uma pessoa assim...

RAUL - Olha de verdade, às vezes eu nem a reconheço mais. Ela mudou tanto nesses último três anos desde que nos casamos, ta parecendo até com a mãe dela que é uma fanática religiosa, cheia de manias e que vive querendo enfiar a religião goela abaixo da gente.

MIGUEL - É... Mulher é muito complicada mesmo, Deus me livre. Tem que relaxar cara, procurar distrair a cabeça fora de casa, com outras coisas... – disse colocando a mão na perna dele. Você é um cara jovem, bonito, teu erro foi se amarrar cedo demais.

RAUL - Você diz isso porque nunca se apaixonou de verdade. – disse sem graça tirando a mão dele de cima de sua perna.

MIGUEL - Relaxa cara, vamos apenas curtir o momento. – disse sorrindo.

RAUL - Desculpa cara, mas essa não é a minha praia. Eu adoro conversar com você, eu confesso que é a melhor parte do meu dia, mas eu não sou gay. Sempre soube que você era e não tenho preconceito com isso, mas não é a minha.

MIGUEL - Às vezes a gente acaba se surpreendendo sabia? Você mesmo disse que quando adolescente uma vez rolou com um carinha...

RAUL - Uma vez e foi coisa de criança. A maioria dos caras já fizeram isso na juventude e nem por isso se tornaram gays, certo?

MIGUEL - Sim, mas tem muitos enrustidos por ai, que ficam dentro do armário, com medo ou vergonha de se assumir. Normalmente tem uma família homofóbica, um pai rígido que vive cobrando que o filho macho traga a sua namoradinha pra ele conhecer, e o cara por medo e covardia se entrega a uma vida na qual ele nem se reconhece. Vive uma farsa e infeliz. E pra quê? Para satisfazer os padrões que a sociedade dita como certo e por ter vergonha de si mesmo? A vida é uma só cara, e só o que importa é ser feliz e mais nada. E só a gente sabe quando e como pode ser feliz, ninguém vai fazer isso pra gente não.

Nesse momento Raul ficou pensativo, mas prestando atenção em tudo que Miguel falava, e ele não pode deixar de se enxergar um pouco em tudo o que o amigo disse. Ele estava infeliz e vivendo uma vida na qual ele realmente não desejava, mas que fora obrigado a vivê-la por pura covardia. Ele amava Tônia sim, mas não do jeito que um marido ama uma mulher, ele a amava como uma amiga, como a irmã que ele nunca teve. Como ele pode trair a si mesmo esses anos todos? Mentindo e enganando a si mesmo e aos outros a sua volta? E agora tinha a sua filha, a quem ele tanto amava... Ela também não merecia viver uma farsa, quando ele mesmo não era real consigo e vivia uma fantasia. – Raul então se levantou, e num rompante beijou Miguel pra valer... Com desejo, fome e fúria. E os dois se entregaram ao prazer ali mesmo no chão daquele escritório, em cima do tapete na sala de Miguel... E Raul sorria muito enquanto eles se beijavam e se tocavam, como se tivesse tirando o peso do mundo de suas costas, logo depois eles tiraram suas camisas. Pela primeira vez em anos, Raul se sentiu feliz e livre novamente...

Ele conseguira se encontrar desde que se entregara a Miguel, ele se sentia de verdade como sempre fora na adolescência, antes de ser reprimido pelo pai. E que por medo do preconceito, ele passou a levar uma vida normal, de hétero bem resolvido consigo mesmo. E agora viria a parte mais difícil, ele teria que contar toda a verdade para Tônia. Seria muito difícil para ele e mais ainda para ela, mas ele devia isso para Tônia, ela merecia saber toda verdade. – Dois dias depois, quando chegou do trabalho, Raul chamou Tônia para conversar, e com dificuldade ele explicou tudo para ela, que ficou de boca aberta e totalmente estarrecida, ela não queria acreditar no que esta ouvindo.

TÔNIA - Eu não posso acreditar nisso. Aliás, eu me recuso a acreditar que isso seja verdade. Você me paquerava na praia, me pediu em namoro, nós ficamos noivos em cima da pedra do elefante, que era o nosso lugar preferido... Agora você vem e me diz que é gay, e que dormiu com outro homem? Nós nos casamos Raul, diante de um pastor, recebemos as bênçãos de Deus diante de milhares de testemunhas, dentro da casa de Deus! – disse começando a chorar de raiva. – Isso não pode ser verdade, porque o Raul que eu conheci não iria aprontar uma coisa dessas comigo. Eu estou me sentindo ofendida, humilhada, enganada... Graças a Deus que o meu pai já faleceu. Ele gostava tanto de você, que pra ele isso seria a morte. A maior decepção da sua vida, eu tenho certeza. Como você me explica um homem que chegou a cortejar uma garota, namorar com ela, depois ficou noivo, casou-se e teve uma filha? E agora ele vem e diz não quero mais, eu sou gay? – gritou ela. – Eu amei você Raul, eu ainda te amo muito... E você me trocou por um homem? Eu nunca fui tão humilhada em toda minha vida...

Raul nesse momento se aproximou dela que estava sentada no sofá e chorava cabisbaixa... E tentou fazer um carinho em sua cabeça.

TÔNIA - Tira essa mão imunda de cima de mim. – disse se levantando. – Eu tenho nojo de você, você não é normal, é uma aberração... Eu já li sobre isso uma vez e os pastores também falam, isso é uma doença Raul, você esta doente e precisa de ajuda. O que nós temos que fazer agora é manter segredo sobre esse seu pequeno deslize e pedir ajuda de um profissional, um psicólogo quem sabe. Também podemos falar com o pastor, ele é obrigado a guardar segredo, depois ele pode te curar, te exorcizar, acho que vale a pena a gente tentar de tudo. – disse atônita, falando coisa com coisa.

RAUL - Chega! – gritou a segurando pelos braços. – Chega Tônia. Será que você não percebe os absurdos que esta falando? Você esta fora de si, não ta falando coisa com coisa... Entenda de uma vez por todas, que o que eu tenho não é uma doença, e também não vai passar. Porque não se trata de uma fase, e sim da minha identidade, da pessoa que eu realmente sou. Eu também não preciso de um padre para me exorcizar, porque eu não estou possuído, nem de tratamento com psicólogo porcaria nenhuma. Eu sou gay desde que nasci, eu já cresci sabendo disso. Eu só fui um covarde por não ter coragem de enfrentar os meus pais e quem quer que fosse, me assumindo como eu sou de verdade. Ser gay ou não, não se trata de uma opção, que você vai e decide à hora de ser ou não ser mais, entende? Mas é sim uma condição humana, da qual nós já nascemos com ela, assim como quem é hétero, já nasce hétero e ponto.

TÔNIA - Não. Não é bem assim, você esta completamente enganado. Quem quer para sim. A Ruth, a minha amiga lá da igreja mesmo, ela me disse que o sobrinho dela era gay, e que depois passou a ir na igreja, nos cultos e conversar com o pastor e acabou percebendo que ele estava no caminho errado e parou, se curou totalmente. Hoje ele dá até testemunho na igreja, como um ex-gay regenerado e de cabeça erguida.

RAUL - Eu não acredito que estou ouvindo essas besteiras em pleno século vinte e um. Você é nova, tem vinte e três anos, como pode pensar assim? E essa sua amiga é outra louca, como você. Quem me garante que esse sobrinho dela ex-gay não prega na igreja a sua cura, e depois vai pra casa do namorado e dorme com ele, ou procura outros caras por ai? Cura gay não existe, assim como infelizmente não existe cura para cabeças preconceituosas como as de pessoas que pensa assim, como vocês... Acorda pra vida Tônia. Você esta com o mesmo pensamento dos seus pais, e com toda certeza vai acabar influenciando a nossa filha também. É por causa de pensamentos assim, de avós e pais, que filhos crescem pensando dessa forma tosca e errada de achar que duas pessoas que se amam são uma aberração só porque são do mesmo sexo. Isso é um circulo vicioso e tem que parar, cada um tem que cuidar da própria vida e apenas respeitar a dos outros. No fim das contas se eu estiver errado, não vai ser pra você, muito menos pra ninguém que eu vou ter que prestar contas e sim com Deus. E o Deus que eu acredito que perdoa os nossos pecados, perdoa assassinos, ladrões, não vai deixar de me perdoar porque eu estou amando... Ainda que eu esteja amando outro homem... É amor, Tônia. E onde tem amor, não pode haver nada de errado.

TÔNIA - Muito bem... Belo discurso de um pagão. Eu vou dizer para os vizinhos e o pessoal da igreja, que você resolveu se separar de mim, que foi embora. Tudo menos a verdade, que me mataria de vergonha. Agora pega as suas coisas e some da minha vida e da vida da minha filha pra sempre, que também há de ter vergonha do pai que tem, assim como a mãe dela.

RAUL - Você pode não acreditar, mas você foi muito especial pra mim. E ainda é... Você me deu a coisa mais preciosa que eu tenho na vida, que é a nossa filha.

TÔNIA - E que você não irá mais vê-la a partir de hoje. Por respeito e amor a ela, se você a ama de verdade. A Bia não merece crescer passando a vergonha e a humilhação de ter um pai como você.

RAUL - Você não pode me proibir de ver a minha filha, eu tenho os meus direitos.

TÔNIA - Essa é a minha decisão final. Se você quiser procurar os seus direitos e ir até a justiça, fique a vontade. Mas saiba que eu direi o que for preciso diante do juiz, para que você perca a causa. Vendo ela com dia e hora marcada. Agora arrume suas coisas, se despeça da Bianca e dá o fora daqui. Eu vou arrumar um emprego, me sustentar e a minha filha, mas espero que você também contribua mensalmente para criação dela e para as despesas da casa, até eu conseguir me virar. Adeus... – diz saindo e depois volta. – Ah, e diferente de você Raul, para mim você foi à maior decepção da minha vida. E a partir de agora, você morreu... Esta morto pra gente. Com licença. - diz enquanto sai sem olhar para trás.
*****

Depois daquela noite, Raul nunca mais viu a filha que deixara para trás com apenas três anos de idade. Com o tempo ele foi morar numa cidade vizinha e Tônia se tornou secretária executiva em uma empresa de exportação. – Quando Bia completou cinco anos de idade, Tônia disse a ela que sempre perguntava pelo pai que o mesmo havia morrido, mas que ela não devia derramar uma lágrima sequer por um homem que a abandonara. – Bia se fez de forte perto da mãe e não chorou. - Apesar de tão pequena, ela era muito esperta e inteligente. Depois que foi dormir, naquela noite, ela chorou muito agarrada ao seu ursinho de pelúcia chamado Ted, um presente dado por seu pai.
Bia cresceu uma menina triste e solitária. Desde pequena ela sempre ouvia da mãe que isso era errado, que aquilo não podia e que Deus castigava, quem não seguia os seus ensinamentos. Até com alguns amiguinhos da escola, Tônia a proibia de brincar se soubesse de algo que na cabeça dela não estava certo. Ela se tornara uma mulher dura, fria, amarga e solitária, que criara a filha sozinha e nunca mais se permitira amar ou ser amada de novo. Tônia se tornou uma mulher magoada, ferida e amargurada com a vida. – Quando Bianca tinha dez anos, ela armou um barraco no colégio, tudo porque uma amiga de Bia tinha os pais separados e o pai dessa menina também era gay.

TÔNIA - Eu já cansei de te dizer pra não andar com esse tipo de gente. Eles são más companhias pra você. Daqui a pouco estão te ensinando coisas erradas também. Onde já se viu um homem viver com outro homem? Isso é errado, é pecaminoso e Deus castiga. O homem foi feito para mulher e a mulher para o homem, para que juntos eles possam gerar a vida e assim dar continuidade nos filhos de Deus. Nunca pense que isso é certo, você está me ouvindo? – perguntou brava. – E de agora em diante, a sua mamata acabou dona Bianca, a partir do próximo domingo você passa a ir ao culto comigo. E lá vai aprender os caminhos de Deus, o certo e o errado.
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O tempo passou e Bia se tornou uma versão mais jovem de sua mãe, que era uma mulher rígida e muito religiosa. – Bia agora aos dezesseis anos de idade, era fechada, revoltada e também homofóbica... Vivia brigando com qualquer um para defender os seus ideais e suas convicções, e não tinha amigos. – O único que ainda a suportava era Guto, o seu namorado que a conhecera no grupo de jovens da igreja e que se encantara por ela e sua beleza angelical desde o começo. Mas estava cada vez mais difícil suportá-la.

Tônia passava seu tempo entre o trabalho, os deveres de casa e as obrigações com a igreja. Nem mesmo televisão ela assistia mais, dizendo que aquilo era uma janela de perdição para quem assistia. E também regulava o que Bia podia assistir. – Tônia descuidou-se até mesmo da sua saúde e há anos sem ir ao médico, ela começou sentir fortes dores na barriga, mas agüentou firme até quando pode. 

Um dia não mais agüentando, resolveu ir até o médico e fazer uns exames. – Tônia parecia ter perdido o gosto pela vida, tanto que nem se deixou abalar pela má notícia que o médico lhe dera:

DOUTOR - Não veio ninguém acompanhando a senhora? O marido, um filho...

TÔNIA - Não senhor. A minha filha tem apenas dezesseis anos de idade, não sabe nada da vida ainda. E marido eu nunca tive, pelo menos não um que fosse de verdade... A vida é dura doutor, independente das pessoas que vivem ao nosso redor, a gente nasce, cresce e vive sozinho. E por fim acaba morrendo sozinho também. Só quem tem Deus no coração e fé, não se deixa abater, ou sofre com medo. Então seja lá o que for que o doutor tenha pra me falar, pode falar que eu sou forte. Eu agüento mais esse tranco da vida. - disse decidida.

DOUTOR - Muito bem, o que a senhora tem é câncer no ovário e ele esta no estágio quatro, que é o mais avançado. Infelizmente não há mais o que ser feito nesse estado... Eu sinto muito.

TÔNIA - E quanto tempo eu tenho de vida? – indagou séria.

DOUTOR - No máximo seis meses, mas eu acredito que não chegue a isso. – disse com pesar.
*****

Duas semanas se passaram e Tônia parecia não lamentar pelo pouco tempo de vida que lhe restava e estava cada vez mais magra e abatida. A única coisa que ela fazia era rezar, rezar e rezar. A oração lhe transmitia toda paz e consolo de que precisava. Já fazia uma semana que ela havia escrito uma carta pro ex-marido, contando tudo e pedindo a ele que cuidasse de Bia, para que ela não ficasse desamparada na vida e sozinha. Ela não esticou conversa, não o recriminou, nem disse como ele deveria criá-la, fez apenas recomendações básicas sobre como ela estava, o seu comportamento e o que gostava de comer. Uma semana depois ele respondeu a carta de Tônia, perguntando o que poderia fazer por ela? Mas ele não obteve resposta, e no fundo já sabia que o silêncio de Tônia era um alto e sonoro não, ou no caso, nada. E se isso e ter a filha ao seu lado que ele tanto amava e sofreu por estar longe dela todo esses anos, fosse o último desejo de sua ex-mulher, ele iria atendê-la e respeitá-la, afinal Raul sentia que devia isso a Tônia.

Bia ia super mal no colégio, sempre arredia e briguenta, ela não permitia que ninguém se aproximasse dela e muito menos se aproximava de alguém. A única pessoa que ainda estava do seu lado, mas que já não agüentava mais as suas crises e revoltas, era Guto, o seu namorado. – E depois do que ela aprontara no colégio então, ele a suportava menos ainda.

BIA - Como isso podia ser normal, meu Deus do céu! Essas pessoas eram uma aberração, isso sim! – pensou Bianca indignada. Tudo o que ela mais repudiava na vida, ali exposto no corredor do colégio, pra quem quisesse ver. Não fosse seu namorado segurá-la, ela teria acabado com a vida delas.
Bianca, ou simplesmente Bia como era chamada carinhosamente por sua mãe e pelo namorado, se tornou uma linda garota de dezesseis anos, e brava como ela só. Bia trazia na maioria das vezes, um semblante sério, tinha opinião formada, era briguenta e triste; ninguém conseguia entender o porquê dela ser assim, nem mesmo Guto, seu namorado há seis meses, que tinha dezessete anos e era o melhor nadador do colégio. Ele só sabia que a amava, mas estava muito difícil manter o namoro. Ela não o escutava, só falava, gritava, esbravejava o tempo todo, e ele já estava cansado disso tudo.

GUTO - Para! – gritou ele, segurando-a. Ela andava depressa e resmungava pelas ruas, parecendo uma louca, e se assustou com o namorado por sua atitude repentina. - De olhos arregalados e olhando fixamente nele, pela primeira vez, ela emudecera, desde o lamentável episódio no colégio. 

GUTO - Para! Chega! Eu não te agüento mais Bia. – disse mais calmo, depois a soltou e segurando-a pela mão, caminhando com ela até um banco na praça por onde passavam e sentou-se com ela. – Eu te amo... Mas esta cada vez mais difícil a convivência contigo. Você parece carregar o peso do mundo nas costas, está sempre na defensiva, como se esperasse algo ou alguém te atingir. Ai você vai e atingi primeiro, passa por cima das pessoas como um trator. Pra que isso? E com pessoas que não estão te fazendo mal nenhum?

BIA - Ah não, pera lá... Então você acha normal, aquela cena que vimos no colégio? – falou já se exaltando novamente.

GUTO - Me deixa pensar... Duas garotas se beijando, que aparentemente se amam e não estão fazendo mal a ninguém, o que há de errado nisso? Deixa-as serem felizes como quiserem. Ninguém tem o direito de julgar isso. Nosso único dever é cuidar de nós mesmos, buscando ser felizes todos os dias e não se preocupando com a vida dos outros... Então sim, eu acho super normal duas garotas se beijando, se amando e até mesmo se casando.

BIA - Bom você é homem, eu até entendo você achar isso normal. Vai ver é até fetiche. Mas vejamos por outra ótica... E se ao invés de garotas, fossem dois garotos se beijando no corredor do colégio, hein Guto? Ainda assim, você continuaria achando tudo normal? – Indaga em tom desafiador? Ele então a encarou sério, depois riu da cara dela, meneando a cabeça.

GUTO - Quando você vai entender Bia, que eu não tenho preconceitos? Ainda que fossem dois garotos e daí? Qual o problema nisso? É amor... E ele não tem que ser certo ou errado, seguir regras ou padrões que a sociedade nos impõe como “normais”; ele precisa apenas de duas pessoas que se amem e se respeitem de verdade. E não importa cor, credo, classe social ou sexo. O amor não se explica. O amor se vive, se sente. Eu não sou gay, e não acho nada de errado em quem seja. E se por acaso um dia eu me apaixonar por um garoto, porque isso pode acontecer, eu vou viver isso sem problemas, porque o problema não estará comigo ou com ele, e sim, na cabeça de pessoas que acham isso errado, que são preconceituosas e homofóbicas como você.

Bia parecia não acreditar naquilo tudo, como seu namorado podia ser tão liberal e condescendente com aquilo? O mundo só podia estar perdido mesmo. Mas ela não se permitiria aceitar isso ou aquilo, ela tinha suas próprias convicções e não iria contra elas jamais. Naquele momento, ela sentiu uma enorme vontade de chorar, mas segurou. A única vez que chorara na vida foi quando sua mãe lhe confessara, quando ela tinha apenas cinco anos de idade, que seu pai não a quisera e que ele as abandonara a própria sorte, sumindo no mundo. Anos mais tarde, ela voltou a chorar, quando sua mãe lhe deu a triste notícia de que seu pai morrera num trágico acidente. Durante três dias, ela chorou até que suas lágrimas secassem... E desde então, prometeu a si mesma nunca mais chorar. 

BIA - Isso não está mais dando certo. – disse sem encará-lo.

GUTO - Nós dois? É do nosso namoro que você está falando? - olhou-a triste.

BIA - Sim. A gente não está se mais entendendo mais, e você não me respeita como eu sou, acho melhor pararmos por aqui.

GUTO - Tudo bem, se é assim que você pensa. Eu nada posso fazer e também não quero mais discutir. Na verdade, eu ando cansado disso tudo, que com toda certeza não esta nos levando a lugar nenhum. Eu gosto de você de verdade, mas você não me ouve, fala de respeito, mas também não respeita a minha opinião ou de qualquer outra pessoa, pensa que é a dona da verdade...

BIA - Ai... Que saco! Ta legal. Eu já entendi. – disse se levantado. – Não precisa ficar me massacrando também o tempo todo, a gente se vê por ai, tchau! – falou saindo apressada. Enquanto num ímpeto, Guto se levantou e foi atrás dela.

GUTO - Espera Bia... – Ela parou, mas sem olhar para trás. – Eu espero do fundo do meu coração que possamos ser amigos. E que você encontre a paz que nem mesma você sabe que procura pra acalmar esse seu coraçãozinho inquieto, triste, revoltado e duro. – Nesse momento uma lágrima caiu do rosto dela. – Você não sabe amar... E quando eu digo isso, eu me refiro a todo tipo de amor, não só o seu por mim, mas pela sua mãe, seus amigos, pelo próximo e principalmente pela vida... Mas você ainda é jovem e pode aprender. Você só precisa se abrir mais pra vida e para o amor... Lembre-se que: O amor não precisa de perguntas, ele é simplesmente a resposta de todas elas! Boa sorte e seja feliz. Tchau...

Bia seguiu em frente, sem olhar para trás... Ela não via à hora de chegar em casa e ir direto para o seu quarto, colocar os fones de ouvido e ouvir a sua playlist no celular, se esquecendo de tudo e de todos...  Até mesmo de Guto. E essa seria a parte mais difícil, pois do seu jeito ela também o amava de verdade. – E a caminho de casa, ela se lembrou: Mas tinha sua mãe, e o sermão que ela ia ouvir, depois que ela soubesse de sua suspensão no colégio. 
*****

Chegando em casa, ela entrou feito um furacão, batendo a porta com tudo e já se dirigindo para o quarto. Sua mãe quando a viu, tratou logo de interrompê-la.

TÔNIA - Hei... Hei mocinha, aonde a senhorita pensa que vai desse jeito? – disse terminando de orar e fazendo o sinal da cruz. - Tônia como sempre era muito religiosa e rígida com a filha. Bia parou de onde estava e se virou séria para mãe, ela sabia que iria ter mais chateação e pensou se não teria sido melhor ficar na rua mesmo. 

Antônia agora estava com trinta e nove anos, e havia pegado licença do seu trabalho, e depois da separação há treze anos, ela nunca mais se interessara por homem nenhum. O grande amor de sua vida e também a maior decepção fora Raul, o pai de Bia. 

TÔNIA - Vem, senta aqui um pouco... Eu preciso ter uma conversa séria com você filha. – disse se ajeitando no sofá, abrindo espaço para a filha, que resistiu um pouco, mas depois se sentou ao lado da mãe.

BIA - Olha se for sobre o que aconteceu no colégio hoje, eu não quero mais falar sobre isso...

TÔNIA - Calma, respira. Eu já estou sabendo o que aconteceu no colégio sim. A diretora acabou de me ligar contando tudo. Mas não é sobre isso que eu quero conversar com você. Eu acho que a suspensão, somada ao fato de tudo que eu tenho pra te falar, vão ser mais do que suficientes para que você reflita e muito sobre a sua vida e a maneira como vem conduzindo as coisas... Enfim, é sobre o seu pai e também sobre mim...

Bia olhou séria para mãe e não entendia o porquê daquele assunto agora, ela estava esperando tudo, menos aquilo...

BIA - Porque isso agora? Meu pai já esta morto, eu nem me lembro dele direito, ele nunca quis saber de mim... Porque desenterrar esse fantasma agora? – perguntou nervosa.

TÔNIA - Porque esse fantasma não existe Bianca! – gritou Tônia se levantando. Bia olhou confusa pra mãe. - Ele nunca existiu...

BIA - Do que você ta falando? – disse também se levantando. A mãe virou-se para ela e disse na lata.

TÔNIA - O seu pai não morreu, ele está vivo! – falou de supetão.

BIA - Como assim não morreu? Você me falou, eu me lembro até hoje, eu chorei a noite inteira por ele... Porque você mentiu pra mim esse tempo todo, hein? – disse com lágrimas caindo. – Sobre o que mais você mentiu hein, mãe? 

TÔNIA - Eu menti sim, ta bom. Eu errei e não tenho como voltar atrás, mas você já é uma moça formada, logo será uma mulher e terá que conviver com a verdade, e vai superá-la ok? Você não é mais um bebê chorão, e com toda certeza sairá mais forte disso tudo. Seu pai me traiu, ele foi contra tudo aquilo que eu sempre preguei, por isso eu não pensei duas vezes e o botei pra fora de casa. Não que fosse resolver alguma coisa, ele teria ido de qualquer maneira mesmo, era só uma questão de tempo.

Bia já nem ouvia mais a mãe. Ela só pensava no que o pai teria feito para que a sua mãe tivesse tanta raiva dele, mesmo após tantos anos, e porque ela o afastará dela, a ponto até mesmo de inventar que ele a abandonara e depois que havia morrido? 

BIA - Mas o que ele fez de tão grave assim pra senhora ficar com tanta raiva dele, a ponto de afastá-lo de mim? A senhora me privou de ter um pai, sabia? Você não tinha esse direito. Mesmo sabendo que ele a traiu, eu tinha o direito de continuar vendo ele.

TÔNIA - Eu te privei da vergonha de ter o pai que você tinha, isso sim. E você deveria me agradecer por isso. Talvez até me agradeça ainda, quando souber de toda verdade.

BIA - Agradecer pelo que, se eu nem mesmo sei do que se trata? Me responde!

TÔNIA - Não seja por isso, você vai saber... Em cima da escrivaninha no seu quarto tem um envelope com dinheiro que eu deixei lá. Deve ter o suficiente pra você ficar por pelo menos uma semana com o seu pai.

BIA - Como assim? Você está me dando dinheiro pra eu ir ver o meu pai, e passar uma semana com ele? Eu nem o conheço, lembra? Porque isso agora? O que a senhora não esta me contando? - Disse cruzando os braços, esperando resposta.

TÔNIA - Ai garota chata! Para de fazer pergunta difícil. - gritou por fim, já sem paciência.
BIA - Então me responde! Você lança essas bombas sobre mim, e espera que eu faça o que você quer sem me dar nenhuma explicação?

TÔNIA - Ta bom, tudo bem. Eu não tenho mais ninguém na vida mesmo... Nem pai, nem mãe, nem irmãos a quem recorrer, e eu estou doente. Por isso, você vai ter que passar uns tempos com o seu pai, por isso eu não tive opção a não ser revelar toda verdade agora, entendeu? – disse séria e firme tentando conter as lágrimas.

Bia parecia cada vez mais confusa e sem saber o que dizer ou pensar, e agora isso, sua mãe estava doente... Será que era mesmo verdade, ou seria outra mentira dela. – pensou, confusa.

BIA - Doente? Como? O que você tem, será que eu posso acreditar na senhora dessa vez?

TÔNIA - Você acha que eu estaria falando do seu pai agora, e mandando você passar um tempo com ele, se não fosse verdade? Se eu não tivesse realmente doente e sem tempo? Eu estou morrendo Bia... Eu tenho câncer! – berrou desesperada.

Nesse momento, o chão onde Bia pisava parece que se abriu diante dela, sua cabeça girava e as suas pernas ficaram bambas. Tanto que ela não teve opção, a não ser se sentar de novo.

BIA - É grave? Desde quando você descobriu? Hoje em dia tem tratamentos, a medicina esta avançada, você não vai morrer. – falou atônita.

TÔNIA - É câncer filha, é claro que é grave. Eu descobri há duas semanas. Enfim, ele está no ovário, foi descoberto tarde demais, está caminhando para o estágio quatro, que é o último e mais agressivo de todos, e é inoperável... Os médicos nada podem fazer, eu tenho no máximo seis meses de vida.
Bia apavorada correu para mãe e a abraçou. Elas choraram juntas por pouco tempo, pois logo Tônia afastou a filha.

TÔNIA - Bom é isso. Agora, por favor, faça o que eu te mandei, e vá encontrar o seu pai. Ele está te esperando. Junto com o envelope, tem também o endereço dele, é perto daqui, fica a quarenta quilômetros mais ou menos. 

BIA - Mas, mãe e a senhora...

TÔNIA - Não fala nada, apenas vá. – disse firme. - Eu vou ficar bem. Deus esta sempre comigo.
*****

Bia foi para o seu quarto chorando, pegou a mala e o envelope e quando voltou, já não viu mais a mãe na sala, na certa ela não queria se despedir... Já no ônibus ela só pensava que a viagem mesmo curta, parecia não ter fim, e ela só desejava poder descansar um pouco, depois de tudo que ouvira. Agora de mala na mão, mesmo sem coragem, afinal sua vida tinha virado do avesso e ela não tivera tempo nem de pensar direito em nada, ela insegura tocava a campainha da casa do pai... Quando a porta finalmente se abriu, revelou-se um homem de meia idade, bonito, cabelos levemente grisalhos, aparentando ter uns quarenta e oito anos. Notava-se que ele estava sem jeito, assim como ela. - Depois a encarou um pouco, certamente já sabia quem ela era.

BIA - Oi. – foi Bia quem quebrou o silêncio, sem saber o que dizer.

RAUL - Oi. Você deve ser a Bianca? – pensou um pouco, depois consertou. – Bia na verdade, que é como você gosta de ser chamada, sua mãe me falou.

BIA - Sim. - os dois emudeceram como se esperassem o outro continuar a conversa que estava no mínimo embaraçosa.

RAUL - Bom, entra. Me deixa levar sua mala. – disse pegando a mala da mão dela e colocando sobre o sofá. Bia foi entrando e olhando tudo a sua volta... A casa era média, nem grande, nem pequena, e era muito bem decorada e arrumada. 

RAUL - Você está com fome? Eu posso preparar um sanduíche pra você, o jantar sai às oito. – disse Raul encarando-a.

BIA - Não. Obrigada. Eu gostaria mesmo é de descansar um pouco, se não tiver problema.

RAUL - Entendo. Problema nenhum, o dia hoje foi bem duro pra você, né? Sua mãe me contou. A gente vem conversando faz três dias, desde que ela me mandou um e-mail explicando tudo, enfim... Bom, vem comigo. – Ele foi indo na frente com a mala, seguido por ela que reparava tudo. - Eu arrumei o quarto de hóspedes pra você, já deixei toalha limpa em cima da cama, tem escova de dente nova no armário do banheiro, shampoo, condicionador, sabonete, tudo que você precisar está aqui. Qualquer outra coisa que precise, é só me chamar. Fique a vontade para tomar o seu banho e descansar. – Os dois se entreolharam por um instante, e logo depois ele saiu do quarto e fechou a porta, tentando deixá-la à vontade. Bia que havia se sentado na cama, se levantou, foi até o banheiro e olhou-se no espelho, seu rosto estava péssimo. Ela estava cansada e abatida, pensou em tomar um banho, mas o cansaço físico e mental eram mais fortes. Ela tirou o tênis e a blusa, depois jogou-se na cama. Sua cabeça girava com tanta informação, por fim, ela respirou fundo, fechou os olhos e tentou descansar um pouco.

Demorou até que Bia pegasse no sono, mas depois ela apagou completamente e só acordou no outro dia pela manhã. O pai fora chamá-la para o jantar, mas ela dormia profundamente e ele achou melhor deixar. Naquela noite, ele dormiu no sofá, caso ela se levantasse e quisesse comer alguma coisa. Depois de ter tomado banho e estar trocada, ela sentia-se um pouco melhor e resolveu sair do quarto e tomar café, já que seu estômago agora começava a reclamar de fome. Então saindo do quarto, ela encontrou o pai na cozinha terminando de por a mesa.

BIA - Bom dia. – disse com meio sorriso.

RAUL - Bom dia, filha. – só depois ele se tocou do que havia dito. Bia ficou surpresa, porém feliz. De alguma forma ela esperava por aquilo a sua vida toda e agora tinha o pai que tanto sonhara, só não conseguia ainda chamá-lo de tal forma. 

RAUL - Vem cá filha, senta. Você deve estar faminta, você dormia tão profundamente ontem quando o jantar ficou pronto, que eu nem tive coragem de acordá-la.

BIA - Obrigada. –disse Bia sentando-se perto do pai a mesa. – Eu estava precisando mesmo descansar. 

RAUL - Olha fica a vontade, eu preparei tudo do jeito que sua mãe me falou que você gosta.

BIA - Ela ligou? Como ela ta? – indagou preocupada.

RAUL - Sim, pra ver se você tinha chegado bem. Ela está melhor na medida do possível. Agora tome seu café, pra gente poder conversar depois.

Bia já começara ficar apreensiva, afinal sobre o que ele queria lhe falar? Na certa queria explicar tudo e se desculpar por ter estado tantos anos ausente de sua vida. – Ela então acabou de tomar o café reforçado e foi direto para sala ter a tal conversa com o pai, que já a esperava. Enfim, sentados de frente um para o outro, Raul começou a falar...

RAUL - Bia, eu queria que você soubesse que nunca foi minha intenção te abandonar. Eu amei você desde o dia que você nasceu filha. Mas a minha vida estava complicada na época, sua mãe e eu já não nos entendíamos mais, brigávamos muito, até o dia que eu disse a ela que amava outra pessoa e ela me colocou pra fora de casa... Eu me lembro desse dia até hoje, você tinha apenas três anos de idade, me doeu muito ter que te deixar, não ver você crescer... – disse começando chorar. - Mas não tinha outro jeito, a sua mãe jamais me perdoaria...

BIA - Então é mesmo verdade que você traiu a mamãe... Ela me contou mesmo. Por isso ela te colocou pra fora de casa, ela nunca me contou nada. Mas isso não era motivo pra você se afastar de mim, mesmo que ela não quisesse deixar você me ver e conviver comigo, você era pai, tinha seus direitos. Porque não os procurou? A não ser que não me quisesse...

RAUL - Nem por um momento diz uma coisa dessas filha. – disse ele enxugando as lágrimas, indo pra perto dela e a abraçando. – Eu te amo Bianca, você não sabe o quanto doeu em mim, viver sem a minha pequena todos esses anos. 

BIA - Mas o que eu não entendo, é o porquê de você nunca ter me procurado?

RAUL - Porque sua mãe nunca deixou, e também porque eu fui fraco, tive vergonha de ser quem eu era, de me assumir pra você...

BIA - Bobagem, no começo seria ruim, mas depois eu aceitaria de boa ter pais separados, tantas crianças tem e passam os fins de semana junto com o pai. Minha vida poderia ter sido assim também, teria sido melhor do que achar que meu pai não me queria, que ele estava morto, sim porque até isso depois de um tempo minha mãe falou, que você tinha morrido.

RAUL - Eu sei. Ela me mandava e-mail informando tudo. Eu fiquei horrorizado com toda história, mas depois achei melhor assim, você poderia ter vergonha de mim, sei lá, até eu mesmo tinha vergonha de mim e não me aceitava no começo...

BIA - Tudo que eu sempre mais quis na minha vida, foi ter um pai... Porque eu teria vergonha de você? Você me parece ser muito bom, carinhoso e atencioso, um homem digno e honesto, pelo menos foi isso que você deixou transparecer até agora, você teria sido um ótimo pai pra mim. – disse com lágrimas nos olhos.

RAUL - E você teria me amado e me aceitado do mesmo jeito se soubesse que eu sou gay?

Nesse momento Bianca ficou muda e surpresa, de repente agora tudo fazia sentido, a mãe religiosa e rígida, não aceitava certas coisas, não perdoara o marido por ter lhe traído com outro homem, e o tocou pra fora de casa. Por isso desde pequena a mãe lhe dizia que os gays não iriam para o céu, que eram uns doentes, sem vergonha, que Deus não tinha criado o homem para viver com outro, e sim com uma mulher, que gays e lésbicas eram uma aberração, que eram pecadores... Ela crescera ouvindo tudo isso e odiando os homossexuais também. E agora ela amava aquele pai que deveria ter sofrido e muito longe dela, assim como ela sofrera longe dele. E quanto de preconceito ele já teria enfrentado na vida por isso, por ser como era? E o quanto ela mesma julgara as pessoas no seu colégio e nas ruas por terem uma opção sexual diferente da que ela julgava ser a ideal? Eles eram normais, sim! Pessoas como outra qualquer e que mereciam respeito e serem felizes... Como a mãe fora capaz de lhe passar tanto ódio por homens e mulheres que só tinham amor para oferecer? Isso não podia continuar assim, ela tinha que mudar e começaria agora.

BIA - Eu te amo pai! – disse emocionada e o abraçando forte. Depois de um tempo, ela o olhou nos olhos e disse: - Eu tenho orgulho de ser sua filha e te aceito como o senhor é... Só não me deixe, não me abandone nunca mais... Por favor! – implorou aos prantos.

Pai e filha se abraçaram forte e choraram juntos... Nascia ali uma amizade pra vida toda, e todas as barreiras, inclusive a do preconceito cultivado durante anos, finalmente haviam sido quebradas...
Bia passou o resto da semana com o pai, o conhecendo melhor. Depois voltou para sua cidade e ficou os últimos dois meses ao lado da mãe, que com a doença também se redimiu pedindo perdão à filha e ao ex-marido, na praia, do lado da pedra do elefante, onde tudo começara... Diante daquele lindo cartão postal, de frente para o mar.

TÔNIA - É muito bom ter vocês dois em casa de novo... – Disse cansada a Bia, depois apontou para o copo de água em cima da mesinha ao lado da cadeira de praia. Bia pegou e levou até sua boca devagar, Tônia tomou quase toda água, ela estava com a boca seca. – Obrigada filha... Seu pai decidiu se vai passar o fim de semana em casa?

BIA - Ele disse que vai sim e fica o tempo que precisar, ele esta de férias. – Falou sorrindo.

TÔNIA - Vem aqui... Senta perto da mãe. – Disse estendendo a mão para a filha. - Eu sei que agi muito errado com você minha filha... Fui rude demais, intolerante demais, exigente demais e dei amor de menos. Estava sempre preocupada em te ensinar o que era certo e errado, e não te dei carinho, atenção... Não fui sua amiga. Eu fico só me perguntando quantas vezes você precisou de mim e eu não estive lá pra te ajudar, aconselhar, te dar colo... Eu jurei pra mim mesma, que não seria pra você, o tipo de mãe que eu tive, e mesmo assim acabei sendo como ela... E agora eu não tenho mais tempo, eu não posso corrigir isso, mas posso sim tornar o meu fardo menos pesado e confortar você pelo menos um pouco, te pedindo perdão...

BIA - Você não precisa fazer isso mãe... – Disse emocionada. – Ta tudo bem, eu juro.

TÔNIA - Não esta não... Nunca esteve. Mas de agora pra frente vai ficar, eu lhe prometo. Às vezes por amor, nós fazemos as maiores loucuras na vida, ficamos cegos. E quando esse cegueira é de raiva, a gente sai machucando todo mundo a nossa volta... O fim do meu casamento com seu pai foi muito traumático pra mim, e humilhante também. Agora você já sabe por quê... Mas eu não tinha o direito de descontar toda raiva que eu estava sentindo do seu pai, em você. – Disse segurando o choro. – Você me perdoa Bia?

BIA - Que pergunta mãe... É claro que eu te perdôo. –Disse já chorando e abraçando a mãe. – Raul que chegou com dois cocos na mão e vendo a cena de pé ao lado delas, também se emocionou. Tônia o viu e abriu os braços para ele que foi até ela, a abraçando com carinho e chorando muito. Os dois trocaram olhares de carinho e Tônia passou a mão pelo rosto dele.

TÔNIA - Me perdoa Raul. Eu te amo! Me perdoa por tudo... E por favor, seja muito feliz e nunca tenha vergonha de ser quem você é... Um homem digno, honrado e do bem. E cuide bem da nossa menina, porque ela tem o melhor pai do mundo. – Raul só assentiu com a cabeça e juntos eles deram um abraço triplo e cheio de amor, como uma família de verdade.

 As duas últimas semanas, eles passaram juntos como uma verdadeira família, até que numa triste manhã nublada e fria, sua mãe veio a falecer... Bia chorou muito e Guto que agora era seu amigo, a consolou, não saindo do seu lado nem por um minuto. Ela decidiu não mais voltar a estudar naquele colégio, tudo mudara e ela também, mesmo sendo outra pessoa agora no convívio com os amigos e demais alunos, eles nunca mais a olharam de outro jeito, pareciam não acreditar em sua mudança. Por isso, ela decidiu ir embora e morar com o pai em outra cidade, respirar outros ares e poder ser a nova Bia, que ela era agora... Afinal depois de tudo que passara, outra vida lhe faria muito bem.
*****

Duas semanas se passaram e Bia finalmente estava morando com pai no interior... Os dois conviviam super bem e Raul estava namorando um cara um pouco mais novo que ele, e que se tornara muito amigo de Bia...

JONAS - Vamos com a gente, Bia. Vai ser divertido... Você não gosta de jogar boliche?

BIA - Não é isso Jonas, eu adoro boliche. Mas é que eu não gosto de segurar vela sabe... Você e o meu pai vão curtir, namorar e eu vou fazer o que atrás de vocês, me fala? Depois boliche só funciona em pares e vocês sabem muito bem disso.

RAUL - Bobagem filha, depois é uma saída familiar e nós somos uma família agora esqueceu?

Diante do silêncio de Bia, Jonas teve uma ideia...

JONAS - Se for por falta de uma quarta pessoa e você não precisar segurar vela como diz, eu vou resolver esse problema agora. – Disse saindo da sala, pegando e celular e fazendo uma ligação.

RAUL - Vai se trocar, vai ser divertido...

BIA – Ok. Vocês me convenceram. Eu já volto.

Raul, Jonas e Bia chegaram ao boliche animados, mas Bia queria saber qual era a surpresa que Jonas lhe reservara.

JONAS - Pronto, o meu sobrinho acabou de chegar para te fazer companhia Bia... – Falou alegre.
Bia se virou de repente e não acreditou no que viu...

BIA - Guto? – disse sorridente e surpresa. – Mas que coincidência boa, o Jonas é seu tio? – indaga surpresa.

GUTO - Sim, ele é. Ele me disse que estava de namorado novo, mas eu nunca podia imaginar que fosse o seu pai. – disse indo até ela, a abraçando e beijando seu rosto. – Que saudade que eu estava de você.

BIA - Eu também estava com muitas saudades de você. – disse sorridente.

JONAS – Bom, problemas de pares resolvidos. Agora é jogar pra ganhar... Vamos nessa Raul? 
Bia e Guto não paravam de se olhar o tempo todo e de trocar sorrisos. Os dois ainda se gostavam e isso estava estampado na cara deles.
*****

Uma semana se passou e foi num belo entardecer no alto da pedra do elefante, enquanto apreciavam o mar lá de cima, que Guto e Bia se acertaram...

BIA - Sabia que desde que a minha mãe morreu, eu não vim mais aqui? Esse lugar é tão bonito e tranqüilo, um pedacinho do céu na terra como ela sempre dizia... Foi aqui que nasceu o amor deles, dela e do meu pai... Uma linda e conturbada história de amor, e ainda assim emocionante.

GUTO - Como toda boa história de amor que se preze... Tem que ter seus momentos bons e ruins, além de haver perdão, reconciliação, superação... São essas histórias de amor que valem a pena ser contadas e principalmente vividas. Porque todo amor, quando é capaz de superar barreiras e o tempo, é um amor de verdade, pra vida toda, ainda que os apaixonados não estejam juntos, mesmo assim a história ficará para sempre guardadas em seus corações. E amores assim, estão cada vez mais raros hoje em dia...

BIA - É verdade... Eu concordo com você. Como diria a canção: Todo grande amor, só é bem grande se for triste... E os meus pais viveram esse amor, apesar de tudo.

GUTO - E desse amor, nasceu à garota mais linda que eu já vi em toda minha vida... Um pouco rebelde, teimosa, cheia de preconceitos, mas que agora mudou e se tornou uma mulher madura e mais linda ainda.

BIA - Pois é... Mas essa garota teimosa e rebelde perdeu um dos bens mais preciosos que ela tinha na vida... O amor de um grande garoto, o mais incrível de todos... E ela acaba de descobrir que ainda o ama muito, que sempre o amou. - confessou um pouco tímida.

GUTO - É muito bom saber disso, porque esse garoto aqui nunca deixou de te amar e no fundo eu sabia que um dia você iria aprender a amar, e mudar, se transformando numa pessoa melhor, que é linda por dentro e também por fora... Pois como diz a minha vó: Não há mal que dure para sempre, nem bem que nunca se acabe. E eu amo você Bianca Cristina da Silva.

Os dois sorriram um para o outro e depois foram se aproximando devagar e se beijaram apaixonadamente, só com o por do sol de testemunha e o barulho das ondas do mar como trilha sonora... Naquela noite, Bia dormiria como há muito tempo não dormia. Um sono leve, de paz e com a consciência tranqüila. 

Em seu quarto, terminando de ler um livro, ela o colocou sobre a cabeceira ao lado de um porta retrato com a foto dos três juntos, ela, o pai e Jonas. E do lado um de sua mãe sorrindo linda para ela como poucas vezes ela a vira, e Bia pensou: - Que nunca fora tão feliz como agora, e que apesar das reviravoltas e de tantos sofrimentos, ela amadurecera e que Guto estava certo, o amor não precisava mesmo de perguntas, ele simplesmente era a resposta pra rodas elas. Bia aprendera uma grande lição com tudo isso, a de que A Vida Ensina... Assim como sua mãe aprendera, Outrora. – Ela então apagou a luz do abajur, deitou-se na cama e dormiu em paz.
*****

“A melhor lição que a vida nos ensina, é que a nossa felicidade depende muito mais de nós mesmos, do que de quem nos cerca. Seja feliz hoje, agora. Mas o seja por você e não por ninguém. A Felicidade acima de tudo é um estado de espírito, você não vai encontrá-la ao lado das pessoas, se primeiro ela não estiver dentro de si mesmo.”

(O Autor)

FIM